
31.03.2026
Rafaela Albuquerque no Concerto de Páscoa da Orquestra do Algarve
Uma conversa sobre Mahler, Strauss, o ensino e a paixão pela voz, com Rui Baeta.
No espírito da Páscoa, a Orquestra do Algarve apresenta um programa de rara beleza espiritual, onde a voz humana se torna ponte entre o terreno e o transcendente. A soprano Rafaela Albuquerque junta-se à orquestra para interpretar duas obras maiores do repertório sinfónico-vocal: o último andamento da Sinfonia n.º 4 de Mahler e as Quatro Últimas Canções de Richard Strauss.
Conversámos com a solista sobre o significado deste programa, os desafios artísticos que encerra e a forma como vive esta música tão profundamente ligada à introspeção e à luz. O resultado é uma entrevista íntima, descontraída e cheia de sensibilidade, que revela não só a intérprete, mas também a pessoa por detrás da voz.
Rafaela, antes de falarmos deste programa tão especial, gostava de começar pelo princípio. Como é que o teu percurso te trouxe até aqui?
O meu percurso é feito de altos e baixos, mas sobretudo de muita resiliência… talvez um dos ingredientes mais essenciais nesta carreira. Sempre caminhei com honestidade e um amor profundo pelo que faço. Comecei na Academia de Música de Santa Cecília, onde concluí o ensino secundário com o 8.º grau de violino e o ensino integrado em canto. Mais tarde, entrei na Escola Superior de Música de Lisboa, onde estive três anos.
O grande ponto de viragem surgiu quando, numa masterclass, conheci aquela que viria a ser a minha professora durante mais de uma década: June Anderson. Iniciámos um trabalho técnico e musical extremamente intenso, que moldou profundamente a minha identidade artística. Cerca de quatro anos depois, entrei na Fabbrica, o Young Artist Program do Teatro dell’Opera di Roma. Foi essa ida para Roma que mudou a minha vida: deu-me palco, experiência e uma nova visão sobre o que significa ser artista.
Terá sido esse o momento decisivo que sentes ter moldado a artista que és hoje?
Sem dúvida. A June Anderson e a Eleonora Pacetti continuam a ser pilares fundamentais no meu percurso. Transformaram completamente a minha perceção do que é cantar… não apenas a nível técnico, mas também musical e humano.
Transmitiram-me uma ideia de responsabilidade absoluta: cada nota tem um significado, cada palavra deve existir com intenção. Ensinaram-me a não olhar para o percurso dos outros, mas a procurar ser melhor do que fui ontem. E, talvez o mais importante, ajudaram-me a compreender que a técnica não é um fim, é apenas o meio que permite libertar a expressão artística. Quando percebi isso, tudo mudou. Cantar deixou de ser apenas execução e passou a ser verdade.
O que te inspira, hoje, quando sobes ao palco?
Inspira-me profundamente a partilha. Trabalhar com diferentes maestros, encenadores e colegas permite-me redescobrir constantemente o repertório. A mesma obra nunca é igual… transforma-se com cada encontro.
Mas aquilo que verdadeiramente me move é a possibilidade de tocar alguém. Saber que, através da minha voz, posso despertar emoções, memórias ou reflexões em quem está a ouvir… isso dá sentido a tudo. Se conseguir que alguém saia diferente do que entrou, então o meu dia está ganho.
A relação com o público, a música em si, a procura por algo mais interior… o que te move?
Move-me essa entrega total. Quando subo ao palco, sinto-me completamente exposta, vulnerável, verdadeira. Dou tudo o que tenho, sem filtros. Há algo de profundamente humano nesse gesto de partilha.
Vivemos tempos tão acelerados, tão cheios de ruído… e poder oferecer um momento de emoção genuína, de conexão, de introspeção… isso é, para mim, uma dádiva. E ao mesmo tempo, é algo que me transforma também.
Este concerto tem uma carga emocional e espiritual muito própria. O que mais te toca neste programa?
O que mais me toca é a forma como este programa nos convida a olhar para a finitude com uma luz diferente. É um tema que me é difícil, profundamente pessoal. Já perdi pessoas que amo e cuja ausência permanece.
E, no entanto, as Quatro Últimas Canções de Strauss oferecem-nos uma visão quase reconciliada com o fim. Não como ruptura, mas como transfiguração. Há nelas uma serenidade luminosa, uma aceitação que não é resignação, mas entendimento. Como se a morte fosse apenas uma passagem para um estado de paz absoluta, onde tudo se dissolve na natureza, na memória, no eterno.
É impossível não me deixar tocar por isso.
E, aproveito para dizer que, dedico estes concertos à minha bisavó: o amor da minha vida.
Mahler e Strauss, cada um à sua maneira, falam de finitude, transcendência, despedida… Como é que vives essa intensidade enquanto intérprete?
Eu não consigo, nem quero, distanciar-me emocionalmente. Para mim, cantar é mergulhar. Se a música pede lágrimas, então eu choro. Somos humanos, e é dessa humanidade que nasce a verdade da interpretação.
Claro que é um desafio enorme, porque estas obras mexem profundamente connosco. Mas acredito que é precisamente aí que acontece o crescimento artístico e pessoal. E é também aí que nasce a verdadeira conexão com o público.
A Sinfonia n.º 4 é uma obra muito especial, sobretudo no último andamento, onde a tua voz surge quase como uma revelação. Como abordas essa inocência, essa visão quase infantil do paraíso?
O último andamento da Quarta de Mahler é de uma beleza enorme. Não é um paraíso grandioso ou distante… é um paraíso visto pelos olhos de uma criança. Simples, puro, quase ingénuo.
Procuro abordar essa música com uma leveza muito consciente, despida de artifícios. Como se a voz fosse apenas um veículo para essa visão inocente do mundo onde não há medo, onde tudo é harmonia, onde a felicidade reside nas coisas mais simples.
Mas há também uma subtileza muito profunda: por detrás dessa inocência, existe uma espécie de saudade. Como se esse paraíso fosse, ao mesmo tempo, um lugar ideal e uma memória distante daquilo que perdemos ao crescer.
Mahler trabalhou mais de dez anos nesta melodia. Sentes essa busca pela perfeição quando a interpretas?
Sinto muito essa busca! Quase como se cada frase carregasse camadas de tempo, de memória, de transformação. É como se Mahler condensasse, naquele andamento, uma visão muito íntima da existência.
Há uma sensação de síntese de algo que foi depurado ao longo de anos até atingir uma forma de simplicidade essencial. E essa simplicidade é, paradoxalmente, o mais difícil de alcançar.
E tecnicamente, qual o aspecto mais desafiante?
No Mahler, o maior desafio está na articulação do texto em passagens rápidas, sem comprometer o legato… manter a fluidez musical enquanto se preserva a clareza da palavra.
Nas Quatro Últimas Canções, o desafio é outro: as frases longuíssimas, que exigem um controlo absoluto do apoio e do suporte. É uma escrita que pede continuidade, suspensão… como se o tempo se dilatasse. E, claro, a carga emocional de cada nota, que nunca pode ser desligada da técnica.
As Quatro Últimas Canções são, para muitos, um testamento musical. O que sentes quando as cantas?
Sinto, acima de tudo, uma enorme responsabilidade. É uma obra de uma profundidade impressionante… emocional, harmónica, espiritual.
Há nelas uma sensação de despedida, mas sem desespero. É como um último olhar sobre o mundo, cheio de beleza, de gratidão e de aceitação. Cantar estas canções é entrar num espaço quase sagrado.
Sou profundamente grata por poder interpretá-las e é, sem dúvida, um marco na minha carreira.
Há ali uma despedida, mas também uma serenidade luminosa. Como encontras o equilíbrio entre emoção e contenção?
Procuro sempre aproximar-me da intenção de Strauss. Estudei muito a sua vida, o seu pensamento, a sua forma de sentir.
Mais do que interpretar, tento tornar-me um veículo dessa voz. E isso exige um equilíbrio delicado… sentir profundamente, mas nunca perder a linha, nunca cair no excesso. A emoção está lá, mas é contida, filtrada por uma espécie de sabedoria tranquila.
E já agora, tens uma favorita dentro do ciclo?
É muito difícil escolher, mas sinto-me especialmente próxima de September e Beim Schlafengehen.
September tem uma melancolia suave, quase outonal… fala do fim com uma delicadeza que me comove muito.
Já Beim Schlafengehen tem algo de transcendental: aquela elevação final, quase como um desprendimento do corpo… é um momento de pura libertação.
A Páscoa tem um simbolismo muito próprio. O que representa para ti cantar nesta quadra?
Cantar nesta quadra tem um significado muito especial para mim. A Páscoa fala-nos de renovação, de transformação, de passagem, da escuridão para a luz.
E sinto que este programa dialoga profundamente com esse simbolismo. Há uma ideia de fim, mas também de recomeço. De aceitação, mas também de esperança.
Para mim, é um momento de introspeção, quase um convite a parar, a ouvir, a sentir. E poder viver isso através da música é algo profundamente significativo.
Há algo que gostasses que o público soubesse antes de ouvir estas obras?
Talvez apenas isto: que se permitam sentir, sem reservas.
Não é necessário compreender tudo racionalmente. Esta música fala diretamente à emoção, ao inconsciente. Cada pessoa vai encontrar nela algo diferente: e isso é o mais bonito.
E existe algum repertório que ainda não interpretaste e que continua na tua lista de sonhos?
Este ano estou a concretizar muitos dos meus sonhos: as Quatro Últimas Canções, o Requiem de Verdi, a Amelia de Un ballo in maschera… são estes os próximos desafios!
Sinto-me profundamente grata.
E agradeço-vos do fundo do meu coração por estar aqui a partilhar um dos meus sonhos convosco! Não poderia ser mais especial! Talvez, no futuro, gostasse de explorar a Tosca, mas tudo a seu tempo. Este é, sem dúvida, um ano muito especial para mim.
É a tua estreia com a Orquestra do Algarve. O que esperas desta colaboração?
Apesar de ser a minha estreia, já conheço muitos músicos da Orquestra do Algarve, e isso deixa-me ainda mais feliz. Sei que vamos viver momentos muito especiais! São músicos de enorme qualidade, mas também pessoas extraordinárias.
Há algo que valorizo muito, que é o que acontece para além do palco: o convívio, a partilha, as conversas depois dos concertos. É aí que muitas vezes nascem ideias, cumplicidades e até novas formas de olhar para a música. Tenho a certeza de que será uma experiência muito rica nesse sentido.
Espero, sinceramente, que seja a primeira de muitas colaborações. É uma orquestra que admiro há muito tempo.
E com o maestro Pablo Urbina — o que esperas encontrar na forma como trabalham juntos este repertório tão sensível?
Ainda não tive a oportunidade de trabalhar pessoalmente com o maestro Pablo Urbina, mas tenho as melhores referências! Tanto a nível musical como humano.
Estou muito entusiasmada com esta colaboração, porque acredito muito neste espaço de partilha entre cantor e maestro. Gosto de construir em conjunto, de experimentar, de questionar, de procurar caminhos diferentes dentro da mesma obra.
Tenho a sensação de que será um encontro muito especial e um momento importante no meu percurso.
O que gostarias que o público levasse consigo depois de ouvir este concerto?
Gostava muito que levassem paz interior.
Vivemos num mundo com tanta pressão, tanto ruído, tanta inquietação… e a música tem esse poder raro de nos recentrar, de nos fazer parar e respirar.
Se alguém sair deste concerto mais tranquilo, mais ligado a si próprio, então tudo terá valido a pena.
Para além da tua carreira como intérprete, tens uma ligação muito forte ao ensino. O que te motiva a dedicar tanto do teu tempo à formação de jovens cantores?
Motiva-me, acima de tudo, aquilo que vejo neles. Vejo talento, vejo vontade, mas também vejo muita incerteza.
Existe uma lacuna muito grande entre o fim dos estudos e a entrada no mercado de trabalho. Não necessariamente por falta de oportunidades, mas pela enorme quantidade de talento que existe em Portugal. E sinto que os anos de formação, por si só, muitas vezes não são suficientes para sustentar os sonhos que estes jovens têm.
A minha experiência com a June Anderson foi determinante: não foi apenas uma formação técnica, foi uma mudança de mentalidade, de exigência, de visão. E é isso que tento transmitir, não só através do meu trabalho direto com os alunos, mas também criando pontes com profissionais da área: diretores, agentes, encenadores, coaches.
O teu projeto OperaTools tem sido muito falado pela forma inovadora como aborda a técnica e a prática vocal. Como nasceu esta ideia e que necessidade sentiste que era importante responder?
A OperaTools nasceu precisamente dessa necessidade: colmatar a distância entre a formação académica e a realidade profissional.
Lá fora existem estruturas muito claras: academias, young artist programs, que ajudam os jovens cantores a fazer essa transição. Em Portugal, essa estrutura praticamente não existe.
A OperaTools funciona, de certa forma, como esse espaço intermédio: oferece masterclasses com profissionais relevantes, cria oportunidades de palco, proporciona gravações, produção de óperas e recitais. É um projeto pensado para dar ferramentas reais e visibilidade.
O ensino do canto está a mudar rapidamente. Como é que o OperaTools se posiciona neste novo contexto?
Posiciona-se muito inspirado naquilo que vi e vivi fora de Portugal, especialmente durante a minha experiência em Roma.
Acredito que é fundamental abrir horizontes e criar redes… tornar mais acessível o contacto com o meio profissional, facilitar o encontro entre talento e oportunidade.
Tive muita sorte no meu percurso, mas custa-me ver tantos jovens extremamente talentosos a desistirem ou a colocarem os seus sonhos em segundo plano por falta de oportunidades ou orientação.
A OperaTools nasce também desse desejo de mudar esse cenário… de criar um caminho mais possível.
Houve algum episódio que te tenha marcado particularmente neste projeto?
Há muitos momentos marcantes, mas talvez o mais emocionante tenha sido perceber que, muitas vezes, os outros acreditaram mais no projeto do que eu própria.
Começou de forma muito simples, quase instintiva… ajudando uma pessoa, depois outra… e hoje são mais de 40 alunos, muitos deles já com um nível profissional muito elevado.
Recentemente, recebemos um apoio significativo para os próximos quatro anos, que nos permitirá desenvolver produções de ópera e expandir o projeto. E ainda nem assimilei completamente… continuo a sentir a OperaTools como algo muito próximo, familiar.
Mas esse reconhecimento, esse voto de confiança, foi profundamente marcante.
De que forma ensinar influencia a tua forma de cantar?
Ensinar obriga-me a um estado constante de reflexão e estudo. Aprendo imenso com os meus alunos, com as suas dificuldades, as suas descobertas, as suas perguntas.
Partilhar sensações… isso faz-me crescer enquanto cantora.
E como é que a tua experiência de palco fortalece a tua pedagogia?
De forma muito direta.
Quanto mais experiência tenho em palco, mais ferramentas tenho para transmitir. Não apenas a nível técnico, mas também a nível emocional, psicológico, artístico.
Para mim, estas duas dimensões, cantar e ensinar, estão profundamente ligadas. Alimentam-se mutuamente. E sinto que só sou verdadeiramente feliz conseguindo viver ambas.
Obras com esta profundidade exigem muito mais do que domínio técnico. Como te preparas psicologicamente?
Preciso de silêncio antes de um concerto. De estar comigo.
De criar um espaço interior onde me posso desligar do exterior e conectar verdadeiramente com aquilo que vou fazer. Gosto de me aproximar do compositor, de sentir que estou a dar voz a algo que foi pensado, sentido e construído com tanta dedicação.
É uma responsabilidade enorme. E, por isso, preciso desse momento de recolhimento, quase como um mergulho consciente num universo emocional muito intenso.
Antes de terminar: se tivesses de resumir o teu amor pelo canto e por este repertório — de forma a convencer alguma, rara, alma mais céptica, a vir assistir a este concerto inesquecível — o que dirias?
O canto, para mim, não é apenas som ou técnica… é uma forma de dizer aquilo que não cabe nas palavras. É onde colocamos as nossas fragilidades, as nossas memórias, os nossos medos e também a nossa esperança. E este repertório, em particular, leva-nos exatamente a esse lugar: um espaço onde somos obrigados a parar, a ouvir e, talvez, a sentir de forma mais honesta.
Se alguém vier a este concerto com cepticismo, não precisa de compreender nada… só precisa de estar disponível. Porque a música de Mahler e Strauss tem essa capacidade rara: entra devagar, quase em silêncio, e quando damos por nós, já nos transformou.
No fundo, não se trata de gostar ou não gostar. Trata-se de permitir-se sentir. E isso, hoje em dia, já é quase um ato revolucionário.
Obrigado, Rafaela, e votos de excelentes concertos!!
Saiba mais sobre os concertos aqui.
31.03.2026
Rafaela Albuquerque no Concerto de Páscoa da Orquestra do Algarve
Uma conversa sobre Mahler, Strauss, o ensino e a paixão pela voz, com Rui Baeta.
No espírito da Páscoa, a Orquestra do Algarve apresenta um programa de rara beleza espiritual, onde a voz humana se torna ponte entre o terreno e o transcendente. A soprano Rafaela Albuquerque junta-se à orquestra para interpretar duas obras maiores do repertório sinfónico-vocal: o último andamento da Sinfonia n.º 4 de Mahler e as Quatro Últimas Canções de Richard Strauss.
Conversámos com a solista sobre o significado deste programa, os desafios artísticos que encerra e a forma como vive esta música tão profundamente ligada à introspeção e à luz. O resultado é uma entrevista íntima, descontraída e cheia de sensibilidade, que revela não só a intérprete, mas também a pessoa por detrás da voz.
Rafaela, antes de falarmos deste programa tão especial, gostava de começar pelo princípio. Como é que o teu percurso te trouxe até aqui?
O meu percurso é feito de altos e baixos, mas sobretudo de muita resiliência… talvez um dos ingredientes mais essenciais nesta carreira. Sempre caminhei com honestidade e um amor profundo pelo que faço. Comecei na Academia de Música de Santa Cecília, onde concluí o ensino secundário com o 8.º grau de violino e o ensino integrado em canto. Mais tarde, entrei na Escola Superior de Música de Lisboa, onde estive três anos.
O grande ponto de viragem surgiu quando, numa masterclass, conheci aquela que viria a ser a minha professora durante mais de uma década: June Anderson. Iniciámos um trabalho técnico e musical extremamente intenso, que moldou profundamente a minha identidade artística. Cerca de quatro anos depois, entrei na Fabbrica, o Young Artist Program do Teatro dell’Opera di Roma. Foi essa ida para Roma que mudou a minha vida: deu-me palco, experiência e uma nova visão sobre o que significa ser artista.
Terá sido esse o momento decisivo que sentes ter moldado a artista que és hoje?
Sem dúvida. A June Anderson e a Eleonora Pacetti continuam a ser pilares fundamentais no meu percurso. Transformaram completamente a minha perceção do que é cantar… não apenas a nível técnico, mas também musical e humano.
Transmitiram-me uma ideia de responsabilidade absoluta: cada nota tem um significado, cada palavra deve existir com intenção. Ensinaram-me a não olhar para o percurso dos outros, mas a procurar ser melhor do que fui ontem. E, talvez o mais importante, ajudaram-me a compreender que a técnica não é um fim, é apenas o meio que permite libertar a expressão artística. Quando percebi isso, tudo mudou. Cantar deixou de ser apenas execução e passou a ser verdade.
O que te inspira, hoje, quando sobes ao palco?
Inspira-me profundamente a partilha. Trabalhar com diferentes maestros, encenadores e colegas permite-me redescobrir constantemente o repertório. A mesma obra nunca é igual… transforma-se com cada encontro.
Mas aquilo que verdadeiramente me move é a possibilidade de tocar alguém. Saber que, através da minha voz, posso despertar emoções, memórias ou reflexões em quem está a ouvir… isso dá sentido a tudo. Se conseguir que alguém saia diferente do que entrou, então o meu dia está ganho.
A relação com o público, a música em si, a procura por algo mais interior… o que te move?
Move-me essa entrega total. Quando subo ao palco, sinto-me completamente exposta, vulnerável, verdadeira. Dou tudo o que tenho, sem filtros. Há algo de profundamente humano nesse gesto de partilha.
Vivemos tempos tão acelerados, tão cheios de ruído… e poder oferecer um momento de emoção genuína, de conexão, de introspeção… isso é, para mim, uma dádiva. E ao mesmo tempo, é algo que me transforma também.
Este concerto tem uma carga emocional e espiritual muito própria. O que mais te toca neste programa?
O que mais me toca é a forma como este programa nos convida a olhar para a finitude com uma luz diferente. É um tema que me é difícil, profundamente pessoal. Já perdi pessoas que amo e cuja ausência permanece.
E, no entanto, as Quatro Últimas Canções de Strauss oferecem-nos uma visão quase reconciliada com o fim. Não como ruptura, mas como transfiguração. Há nelas uma serenidade luminosa, uma aceitação que não é resignação, mas entendimento. Como se a morte fosse apenas uma passagem para um estado de paz absoluta, onde tudo se dissolve na natureza, na memória, no eterno.
É impossível não me deixar tocar por isso.
E, aproveito para dizer que, dedico estes concertos à minha bisavó: o amor da minha vida.
Mahler e Strauss, cada um à sua maneira, falam de finitude, transcendência, despedida… Como é que vives essa intensidade enquanto intérprete?
Eu não consigo, nem quero, distanciar-me emocionalmente. Para mim, cantar é mergulhar. Se a música pede lágrimas, então eu choro. Somos humanos, e é dessa humanidade que nasce a verdade da interpretação.
Claro que é um desafio enorme, porque estas obras mexem profundamente connosco. Mas acredito que é precisamente aí que acontece o crescimento artístico e pessoal. E é também aí que nasce a verdadeira conexão com o público.
A Sinfonia n.º 4 é uma obra muito especial, sobretudo no último andamento, onde a tua voz surge quase como uma revelação. Como abordas essa inocência, essa visão quase infantil do paraíso?
O último andamento da Quarta de Mahler é de uma beleza enorme. Não é um paraíso grandioso ou distante… é um paraíso visto pelos olhos de uma criança. Simples, puro, quase ingénuo.
Procuro abordar essa música com uma leveza muito consciente, despida de artifícios. Como se a voz fosse apenas um veículo para essa visão inocente do mundo onde não há medo, onde tudo é harmonia, onde a felicidade reside nas coisas mais simples.
Mas há também uma subtileza muito profunda: por detrás dessa inocência, existe uma espécie de saudade. Como se esse paraíso fosse, ao mesmo tempo, um lugar ideal e uma memória distante daquilo que perdemos ao crescer.
Mahler trabalhou mais de dez anos nesta melodia. Sentes essa busca pela perfeição quando a interpretas?
Sinto muito essa busca! Quase como se cada frase carregasse camadas de tempo, de memória, de transformação. É como se Mahler condensasse, naquele andamento, uma visão muito íntima da existência.
Há uma sensação de síntese de algo que foi depurado ao longo de anos até atingir uma forma de simplicidade essencial. E essa simplicidade é, paradoxalmente, o mais difícil de alcançar.
E tecnicamente, qual o aspecto mais desafiante?
No Mahler, o maior desafio está na articulação do texto em passagens rápidas, sem comprometer o legato… manter a fluidez musical enquanto se preserva a clareza da palavra.
Nas Quatro Últimas Canções, o desafio é outro: as frases longuíssimas, que exigem um controlo absoluto do apoio e do suporte. É uma escrita que pede continuidade, suspensão… como se o tempo se dilatasse. E, claro, a carga emocional de cada nota, que nunca pode ser desligada da técnica.
As Quatro Últimas Canções são, para muitos, um testamento musical. O que sentes quando as cantas?
Sinto, acima de tudo, uma enorme responsabilidade. É uma obra de uma profundidade impressionante… emocional, harmónica, espiritual.
Há nelas uma sensação de despedida, mas sem desespero. É como um último olhar sobre o mundo, cheio de beleza, de gratidão e de aceitação. Cantar estas canções é entrar num espaço quase sagrado.
Sou profundamente grata por poder interpretá-las e é, sem dúvida, um marco na minha carreira.
Há ali uma despedida, mas também uma serenidade luminosa. Como encontras o equilíbrio entre emoção e contenção?
Procuro sempre aproximar-me da intenção de Strauss. Estudei muito a sua vida, o seu pensamento, a sua forma de sentir.
Mais do que interpretar, tento tornar-me um veículo dessa voz. E isso exige um equilíbrio delicado… sentir profundamente, mas nunca perder a linha, nunca cair no excesso. A emoção está lá, mas é contida, filtrada por uma espécie de sabedoria tranquila.
E já agora, tens uma favorita dentro do ciclo?
É muito difícil escolher, mas sinto-me especialmente próxima de September e Beim Schlafengehen.
September tem uma melancolia suave, quase outonal… fala do fim com uma delicadeza que me comove muito.
Já Beim Schlafengehen tem algo de transcendental: aquela elevação final, quase como um desprendimento do corpo… é um momento de pura libertação.
A Páscoa tem um simbolismo muito próprio. O que representa para ti cantar nesta quadra?
Cantar nesta quadra tem um significado muito especial para mim. A Páscoa fala-nos de renovação, de transformação, de passagem, da escuridão para a luz.
E sinto que este programa dialoga profundamente com esse simbolismo. Há uma ideia de fim, mas também de recomeço. De aceitação, mas também de esperança.
Para mim, é um momento de introspeção, quase um convite a parar, a ouvir, a sentir. E poder viver isso através da música é algo profundamente significativo.
Há algo que gostasses que o público soubesse antes de ouvir estas obras?
Talvez apenas isto: que se permitam sentir, sem reservas.
Não é necessário compreender tudo racionalmente. Esta música fala diretamente à emoção, ao inconsciente. Cada pessoa vai encontrar nela algo diferente: e isso é o mais bonito.
E existe algum repertório que ainda não interpretaste e que continua na tua lista de sonhos?
Este ano estou a concretizar muitos dos meus sonhos: as Quatro Últimas Canções, o Requiem de Verdi, a Amelia de Un ballo in maschera… são estes os próximos desafios!
Sinto-me profundamente grata.
E agradeço-vos do fundo do meu coração por estar aqui a partilhar um dos meus sonhos convosco! Não poderia ser mais especial! Talvez, no futuro, gostasse de explorar a Tosca, mas tudo a seu tempo. Este é, sem dúvida, um ano muito especial para mim.
É a tua estreia com a Orquestra do Algarve. O que esperas desta colaboração?
Apesar de ser a minha estreia, já conheço muitos músicos da Orquestra do Algarve, e isso deixa-me ainda mais feliz. Sei que vamos viver momentos muito especiais! São músicos de enorme qualidade, mas também pessoas extraordinárias.
Há algo que valorizo muito, que é o que acontece para além do palco: o convívio, a partilha, as conversas depois dos concertos. É aí que muitas vezes nascem ideias, cumplicidades e até novas formas de olhar para a música. Tenho a certeza de que será uma experiência muito rica nesse sentido.
Espero, sinceramente, que seja a primeira de muitas colaborações. É uma orquestra que admiro há muito tempo.
E com o maestro Pablo Urbina — o que esperas encontrar na forma como trabalham juntos este repertório tão sensível?
Ainda não tive a oportunidade de trabalhar pessoalmente com o maestro Pablo Urbina, mas tenho as melhores referências! Tanto a nível musical como humano.
Estou muito entusiasmada com esta colaboração, porque acredito muito neste espaço de partilha entre cantor e maestro. Gosto de construir em conjunto, de experimentar, de questionar, de procurar caminhos diferentes dentro da mesma obra.
Tenho a sensação de que será um encontro muito especial e um momento importante no meu percurso.
O que gostarias que o público levasse consigo depois de ouvir este concerto?
Gostava muito que levassem paz interior.
Vivemos num mundo com tanta pressão, tanto ruído, tanta inquietação… e a música tem esse poder raro de nos recentrar, de nos fazer parar e respirar.
Se alguém sair deste concerto mais tranquilo, mais ligado a si próprio, então tudo terá valido a pena.
Para além da tua carreira como intérprete, tens uma ligação muito forte ao ensino. O que te motiva a dedicar tanto do teu tempo à formação de jovens cantores?
Motiva-me, acima de tudo, aquilo que vejo neles. Vejo talento, vejo vontade, mas também vejo muita incerteza.
Existe uma lacuna muito grande entre o fim dos estudos e a entrada no mercado de trabalho. Não necessariamente por falta de oportunidades, mas pela enorme quantidade de talento que existe em Portugal. E sinto que os anos de formação, por si só, muitas vezes não são suficientes para sustentar os sonhos que estes jovens têm.
A minha experiência com a June Anderson foi determinante: não foi apenas uma formação técnica, foi uma mudança de mentalidade, de exigência, de visão. E é isso que tento transmitir, não só através do meu trabalho direto com os alunos, mas também criando pontes com profissionais da área: diretores, agentes, encenadores, coaches.
O teu projeto OperaTools tem sido muito falado pela forma inovadora como aborda a técnica e a prática vocal. Como nasceu esta ideia e que necessidade sentiste que era importante responder?
A OperaTools nasceu precisamente dessa necessidade: colmatar a distância entre a formação académica e a realidade profissional.
Lá fora existem estruturas muito claras: academias, young artist programs, que ajudam os jovens cantores a fazer essa transição. Em Portugal, essa estrutura praticamente não existe.
A OperaTools funciona, de certa forma, como esse espaço intermédio: oferece masterclasses com profissionais relevantes, cria oportunidades de palco, proporciona gravações, produção de óperas e recitais. É um projeto pensado para dar ferramentas reais e visibilidade.
O ensino do canto está a mudar rapidamente. Como é que o OperaTools se posiciona neste novo contexto?
Posiciona-se muito inspirado naquilo que vi e vivi fora de Portugal, especialmente durante a minha experiência em Roma.
Acredito que é fundamental abrir horizontes e criar redes… tornar mais acessível o contacto com o meio profissional, facilitar o encontro entre talento e oportunidade.
Tive muita sorte no meu percurso, mas custa-me ver tantos jovens extremamente talentosos a desistirem ou a colocarem os seus sonhos em segundo plano por falta de oportunidades ou orientação.
A OperaTools nasce também desse desejo de mudar esse cenário… de criar um caminho mais possível.
Houve algum episódio que te tenha marcado particularmente neste projeto?
Há muitos momentos marcantes, mas talvez o mais emocionante tenha sido perceber que, muitas vezes, os outros acreditaram mais no projeto do que eu própria.
Começou de forma muito simples, quase instintiva… ajudando uma pessoa, depois outra… e hoje são mais de 40 alunos, muitos deles já com um nível profissional muito elevado.
Recentemente, recebemos um apoio significativo para os próximos quatro anos, que nos permitirá desenvolver produções de ópera e expandir o projeto. E ainda nem assimilei completamente… continuo a sentir a OperaTools como algo muito próximo, familiar.
Mas esse reconhecimento, esse voto de confiança, foi profundamente marcante.
De que forma ensinar influencia a tua forma de cantar?
Ensinar obriga-me a um estado constante de reflexão e estudo. Aprendo imenso com os meus alunos, com as suas dificuldades, as suas descobertas, as suas perguntas.
Partilhar sensações… isso faz-me crescer enquanto cantora.
E como é que a tua experiência de palco fortalece a tua pedagogia?
De forma muito direta.
Quanto mais experiência tenho em palco, mais ferramentas tenho para transmitir. Não apenas a nível técnico, mas também a nível emocional, psicológico, artístico.
Para mim, estas duas dimensões, cantar e ensinar, estão profundamente ligadas. Alimentam-se mutuamente. E sinto que só sou verdadeiramente feliz conseguindo viver ambas.
Obras com esta profundidade exigem muito mais do que domínio técnico. Como te preparas psicologicamente?
Preciso de silêncio antes de um concerto. De estar comigo.
De criar um espaço interior onde me posso desligar do exterior e conectar verdadeiramente com aquilo que vou fazer. Gosto de me aproximar do compositor, de sentir que estou a dar voz a algo que foi pensado, sentido e construído com tanta dedicação.
É uma responsabilidade enorme. E, por isso, preciso desse momento de recolhimento, quase como um mergulho consciente num universo emocional muito intenso.
Antes de terminar: se tivesses de resumir o teu amor pelo canto e por este repertório — de forma a convencer alguma, rara, alma mais céptica, a vir assistir a este concerto inesquecível — o que dirias?
O canto, para mim, não é apenas som ou técnica… é uma forma de dizer aquilo que não cabe nas palavras. É onde colocamos as nossas fragilidades, as nossas memórias, os nossos medos e também a nossa esperança. E este repertório, em particular, leva-nos exatamente a esse lugar: um espaço onde somos obrigados a parar, a ouvir e, talvez, a sentir de forma mais honesta.
Se alguém vier a este concerto com cepticismo, não precisa de compreender nada… só precisa de estar disponível. Porque a música de Mahler e Strauss tem essa capacidade rara: entra devagar, quase em silêncio, e quando damos por nós, já nos transformou.
No fundo, não se trata de gostar ou não gostar. Trata-se de permitir-se sentir. E isso, hoje em dia, já é quase um ato revolucionário.
Obrigado, Rafaela, e votos de excelentes concertos!!
Saiba mais sobre os concertos aqui.
