
08.11.2026
De Guadalupe a Paris
A incrível história do Cavaleiro Bologne
Esgrimista, violinista, maestro, oficial
Joseph Bologne (ou Boulogne, grafias igualmente válidas, embora a primeira seja mais comum) foi um dos mais notáveis esgrimistas da Europa, violinista virtuoso, maestro, compositor e oficial do exército. Atravessou a corte de Versalhes, os salões de Paris e os campos de batalha da Revolução Francesa.
Nasce em Guadalupe, a 25 de dezembro de 1745, segundo a data mais comummente indicada, filho ilegítimo do pai, Georges Bologne de Saint-Georges, um abastado plantador francês, e da mãe, Nanon, uma mulher de origem africada, escravizada no agregado familiar. Por volta dos sete anos, Joseph foi levado para França, onde recebe uma educação de elite, finaciada pelo pai, que inclui esgrima, equitação, música e letras.
Um cavaleiro por mérito próprio
Aos 13 anos entra na academia de esgrima de La Boëssière, em Paris. Em 1761, ainda estudante, vence ao mestre Alexandre Picard que, segundo algumas fontes, o havia insultado em público por causa da sua origem. O combate mobiliza uma plateia dividida entre quem condenava e quem defendia a escravatura, numa Paris onde os ideais do Iluminismo ganhavam corpo.
Concluídos os estudos, foi armado cavaleiro e nomeado oficial da guarda real, passando a usar o título de Chevalier de Saint-Georges, a partir do nome da propriedade paterna. Um pormenor essencial: o pai só foi enobrecido em 1757 e o título só se herdava por via legítima. Joseph era filho ilegítimo, de modo que a nobreza que ostentou foi conquistada por seu mérito próprio.
A música
Na década de 1760, o violinista Lolli compôs dois concertos para Bologne e Gossec dedicou-lhe seis trios, o que leva a supor que tenham sido, respetivamente, os seus professores de violino e de composição. Em 1769 estreou-se como violinista na orquestra de Gossec, o Concert des Amateurs, e em 1773 recebeu a sua direção. Sob a sua batuta, a orquestra ganhou fama e um público devoto. A própria rainha Maria Antonieta torna-se presença assídua nos concertos e convida-o a tocar em privado em Versalhes.
Em 1776, no auge da fama, é convidado a dirigir a Ópera de Paris. Algumas cantoras da casa enviaram uma petição à rainha, recusando receber ordens de uma pessoa mestiça. Bologne nunca chega, por isso, a ocupar o cargo. Algumas fontes referem que as tensões raciais se agravaram a partir daí, incluindo um relato de agressão violenta à saída de Versalhes, em 1779. É certo que, no final da década, passa a dedicar-se sobretudo à composição e que, a partir de 1785, abandona completamente a composição instrumental.
As duas sinfonias que a Orquestra do Algarve irá, agora, apresentar, nascem nesse ano de 1779 e são escritas para o Concert des Amateurs, que ainda dirigia: no esplendor da fama, com a rainha atenta e a ferida da Ópera ainda por sarar.
Em 1781 o Concert des Amateurs extinguiu-se por falta de meios. Bologne fundou o Concert de la Loge Olympique, para o qual o conde d’Ogny encomendou a Haydn as Sinfonias de Paris, e de que Bologne foi também intermediário.
Revolução e Terror
Na Revolução Francesa tornou-se coronel da Légion Nationale des Américains et du Midi, unidade composta por homens negros e mestiços, muitas vezes apontada como a primeira do género na Europa. Foi preso durante o Terror e só libertado depois da queda de Robespierre. Morreu em 1799.
O esquecimento também se constrói
Com o seu desaparcimento, apaga-se progressivamente a sua música. Extintas, a par, as duas orquestras que dirigia, há poucas instituições capazes de transmitir e guardar o seu legado. Aos poucos, ficou na memória como o esgrimista exímio e o cavaleiro exótico, mais do que como músico, sobretudo por causa da sua origem.
Em tempos recentes tornou-se comum chamar-lhe “Mozart negro”. A expressão reduz uma vida inteira a um traço identitário e é, além disso, inexata: Mozart nasceu 11 anos depois. Mede-o pela sombra de um compositor branco já consagrado, quando Bologne foi, na realidade, um músico com obra própria, diretor de orquestra e com um público fiel enquanto viveu.
O reconhecimento que advém de uma etiqueta emprestada sugere, em todo o caso, a marginalização em relação ao cânone. O cânone é elaborado por pessoas, com critérios, que deixam de fora quem deles se desvia. Esquecer é muitas vezes um processo, não um acidente, e o que se construiu pode desfazer-se, programando, tocando e contando.
Domingo, 8 de novembro, às 17h
Nos últimos anos, a redescoberta fez-se através de novas edições das partituras, de orquestras que voltaram a programá-lo e de um filme que o devolveu ao grande público. No domingo, 8 de novembro, às 17h, a Orquestra do Algarve leva duas das suas sinfonias ao Cineteatro de São Brás de Alportel, ao lado da Sinfonia em Ré Maior do próprio Gossec, o seu mestre. É o último concerto promenade do ano, dirigido pelo maestro Tiago Moreira da Silva, que também comenta o programa.
08.11.2026
De Guadalupe a Paris
A incrível história do Cavaleiro Bologne
Esgrimista, violinista, maestro, oficial
Joseph Bologne (ou Boulogne, grafias igualmente válidas, embora a primeira seja mais comum) foi um dos mais notáveis esgrimistas da Europa, violinista virtuoso, maestro, compositor e oficial do exército. Atravessou a corte de Versalhes, os salões de Paris e os campos de batalha da Revolução Francesa.
Nasce em Guadalupe, a 25 de dezembro de 1745, segundo a data mais comummente indicada, filho ilegítimo do pai, Georges Bologne de Saint-Georges, um abastado plantador francês, e da mãe, Nanon, uma mulher de origem africada, escravizada no agregado familiar. Por volta dos sete anos, Joseph foi levado para França, onde recebe uma educação de elite, finaciada pelo pai, que inclui esgrima, equitação, música e letras.
Um cavaleiro por mérito próprio
Aos 13 anos entra na academia de esgrima de La Boëssière, em Paris. Em 1761, ainda estudante, vence ao mestre Alexandre Picard que, segundo algumas fontes, o havia insultado em público por causa da sua origem. O combate mobiliza uma plateia dividida entre quem condenava e quem defendia a escravatura, numa Paris onde os ideais do Iluminismo ganhavam corpo.
Concluídos os estudos, foi armado cavaleiro e nomeado oficial da guarda real, passando a usar o título de Chevalier de Saint-Georges, a partir do nome da propriedade paterna. Um pormenor essencial: o pai só foi enobrecido em 1757 e o título só se herdava por via legítima. Joseph era filho ilegítimo, de modo que a nobreza que ostentou foi conquistada por seu mérito próprio.
A música
Na década de 1760, o violinista Lolli compôs dois concertos para Bologne e Gossec dedicou-lhe seis trios, o que leva a supor que tenham sido, respetivamente, os seus professores de violino e de composição. Em 1769 estreou-se como violinista na orquestra de Gossec, o Concert des Amateurs, e em 1773 recebeu a sua direção. Sob a sua batuta, a orquestra ganhou fama e um público devoto. A própria rainha Maria Antonieta torna-se presença assídua nos concertos e convida-o a tocar em privado em Versalhes.
Em 1776, no auge da fama, é convidado a dirigir a Ópera de Paris. Algumas cantoras da casa enviaram uma petição à rainha, recusando receber ordens de uma pessoa mestiça. Bologne nunca chega, por isso, a ocupar o cargo. Algumas fontes referem que as tensões raciais se agravaram a partir daí, incluindo um relato de agressão violenta à saída de Versalhes, em 1779. É certo que, no final da década, passa a dedicar-se sobretudo à composição e que, a partir de 1785, abandona completamente a composição instrumental.
As duas sinfonias que a Orquestra do Algarve irá, agora, apresentar, nascem nesse ano de 1779 e são escritas para o Concert des Amateurs, que ainda dirigia: no esplendor da fama, com a rainha atenta e a ferida da Ópera ainda por sarar.
Em 1781 o Concert des Amateurs extinguiu-se por falta de meios. Bologne fundou o Concert de la Loge Olympique, para o qual o conde d’Ogny encomendou a Haydn as Sinfonias de Paris, e de que Bologne foi também intermediário.
Revolução e Terror
Na Revolução Francesa tornou-se coronel da Légion Nationale des Américains et du Midi, unidade composta por homens negros e mestiços, muitas vezes apontada como a primeira do género na Europa. Foi preso durante o Terror e só libertado depois da queda de Robespierre. Morreu em 1799.
O esquecimento também se constrói
Com o seu desaparcimento, apaga-se progressivamente a sua música. Extintas, a par, as duas orquestras que dirigia, há poucas instituições capazes de transmitir e guardar o seu legado. Aos poucos, ficou na memória como o esgrimista exímio e o cavaleiro exótico, mais do que como músico, sobretudo por causa da sua origem.
Em tempos recentes tornou-se comum chamar-lhe “Mozart negro”. A expressão reduz uma vida inteira a um traço identitário e é, além disso, inexata: Mozart nasceu 11 anos depois. Mede-o pela sombra de um compositor branco já consagrado, quando Bologne foi, na realidade, um músico com obra própria, diretor de orquestra e com um público fiel enquanto viveu.
O reconhecimento que advém de uma etiqueta emprestada sugere, em todo o caso, a marginalização em relação ao cânone. O cânone é elaborado por pessoas, com critérios, que deixam de fora quem deles se desvia. Esquecer é muitas vezes um processo, não um acidente, e o que se construiu pode desfazer-se, programando, tocando e contando.
Domingo, 8 de novembro, às 17h
Nos últimos anos, a redescoberta fez-se através de novas edições das partituras, de orquestras que voltaram a programá-lo e de um filme que o devolveu ao grande público. No domingo, 8 de novembro, às 17h, a Orquestra do Algarve leva duas das suas sinfonias ao Cineteatro de São Brás de Alportel, ao lado da Sinfonia em Ré Maior do próprio Gossec, o seu mestre. É o último concerto promenade do ano, dirigido pelo maestro Tiago Moreira da Silva, que também comenta o programa.
